domingo, 23 de abril de 2017

Chama

Enquanto o pavio da vela
queima
Clamo o fogo da ponta
e acendo teu nome.

No caminho aonde a cera 
derrete quente
o fim da luz
Clareio teu facho
Sobre mim.

Na penumbra
de tua réstia face
Avulto uma sombra
que em nada
figura.

Chega-te a mim
nossa escuridão.
E a clareira nova
revigora
uma outra crucifixão! 

segunda-feira, 18 de julho de 2016

Os anos de Augusto

Augusto é órfão de família viva - de corpo presente - desde que sua amada avó falecera ano passado. De seu nascimento até a noite que ela voltava para casa sem nunca mais ter chegado, Dona Ciça era quem cuidava do pequeno e  quem teimava os ouvidos quando os outros diziam "deixa o menino" e se iam; ela, agarrando-o pela mãe do "venha", aconchegava-o em seus pertos. Aquietava, assim, os dois. Deu-se então que, assim que partira, os outros disseram ao garoto "que assim seria" e ele se foi - indo.

Um dia na escola, com o assobio na cabeça, ouviu ao longe o vento que soprava, no gesticular da professora.

- Augusto, perguntei o que você quer ser quando crescer! Então, o que pretende?!

De pronto, como se o vento sempre fosse um tufão "aqui dentro", autobiografou a dureza de seus poucos anos, que queriam ser muito além do "esse menino ai":

- Eu quero ser velho, senhora! Eu quero ser velho...

Depois disso, Augusto emudeceu dias sem saber por quê. Talvez, a chave da vida tivesse voz, mas não vez. Talvez porque a vez, fosse mais do que a voz em uma criança.

Ele quer ser velho. Augusto quer ser velho. "Meu menino entendeu o ser".

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Oriente

Com mãos poentes
O tecido é lentamente
afastado.

E o corpo
inclinado
levemente semeia.

Há dança.

quinta-feira, 10 de março de 2016

Lançamento do livro “O fio de Ariadne”

Thor Resende, jovem escritor mineiro, lança seu primeiro romance policial em Belo Horizonte




Há alguma força capaz de alterar o destino? Ou sua determinação é imutável, como sugere o próprio significado da palavra? Esse questionamento é a base central do livro “O fio de Ariadne”, de Thor Resende. A obra, que entrelaça a história de Sara, Antônio e a de um homicídio investigado pela delegada Rocha, traz referências ao mito que dá título ao livro e em que cuja história tem-se o amor como única fonte de salvação para todos os males que assolam as relações humanas.

Em toda a trama, que é caracterizada como um romance policial, o leitor é instigado a acompanhar a vida dos personagens em busca de compreender a conexão existente entre todas elas e que, em princípio, parecem ser tão distintas umas das outras. A narrativa é construída mesclando a primeira e a terceira pessoa e, ao passar das páginas, descobre-se a surpreendente relação entre as histórias, chegando à constatação de que todas as certezas carregadas ao longo dos anos podem cair por terra em questão de minutos.

“O fio de Ariadne” é uma leitura prazerosa que tem feito sucesso com o público jovem adulto. Segundo Yasmin Martins, de 19 anos, amante da literatura e blogueira do site “Books and More”, “...a escrita de Thor Resende é clara e leve, o que torna a leitura fácil e convidativa. Foi muito bom entrar nesta história e visualizar as cenas e situações”. 


Lançamento do livro
O lançamento do livro “O fio de Ariadne” acontecerá na cidade de Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 12 de março de 2016, às 19h, na livraria Saraiva do Shopping Diamond Mall. O autor iniciará o evento com um bate-papo sobre a obra que faz parte da Coleção “Talentos da Literatura Brasileira”, da editora paulista Novo Século e, em seguida, irá autografar os exemplares dos leitores presentes.


Sobre o autor
Thor Resende é um jovem estudante de Direito de 21 anos, professor e supervisor de Literatura no Pré-Vestibular Equalizar da UFMGestagiário na 7° Promotoria de Justiça do 1° Tribunal do Júri do Ministério Público de Minas Gerais, e escritor. Leitor voraz desde os 13 anos de idade, iniciou suas primeiras histórias literárias por incentivo de sua avó, D. Diva, cujo amor pelos livros foi repassado ao neto.


Lançamento do livro “O fio de Ariadne”
Local: Livraria Saraiva – Shopping Diamond Mall
Endereço: Av. Olegário Maciel, 1.600 – Lourdes – Belo Horizonte / MG
Data: 12/03/2016
Horário: 19h00

Livro disponível para compra física e virtual:
Amazon

Mais informações:

Assessoria de Imprensa   
Fernanda Fernandes Fontes
fnandafontes@gmail.com
(31) 9 9256-8000

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

Pulsão

O impulso pulsa.
Espinho que finca
Voz que dita
Às mãos o que pensar.

O impulso pulsa.
Ofega o sentido
Taquicardia o sonho
Grita o agito, sem considerar.

O impulso ainda pulsa.
Solta a razão desenfreada
Que pula imprudente
No ciclo do recomeçar.

O intruso
O impulso
O pulso
Pula. 

E sangra, sangra. E sangra.


quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Brado

Suplicante te peço
Em relampejo desejo que brota
Da pele minha
Ao encontro da sua.

Tenha dó
E venha.

Por onde quer que seja
A conduzir a arritmia densa
Em que sussurro
Teu nome.

Tenha dó
E venha

De mãos atadas
Suplicante
Curvada ao pedido
Rogo-te:

Tenha dó...
Tenha dó...
Tenha dó.

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Vida e morte no baile

Desligo o carro, atravesso a rua e bato à porta ininterruptas vezes até que ela se abra - o que não demora. Lanço-me à casa ávida pelo encontro, por quebrar descuidadosamente um vaso que ao canto está, pela pressa de ir e ser. Mas não o faço. Sento-me à poltrona, pés a balançar. No rosto, um singelo tom de “diga-me” com ares de “que seja assim” e não de que “assim seja”.

Enquanto isso, fantasmas valsam na sala. Eles não estavam aqui quando entrei. Não havia música, apenas o bailar do mutismo.

A inquietude taqui-cardia-me. O desejo, a ânsia, a cruz. Valha-me Deus. Valha-me o Diabo. Eu sou o meio que pende. Levanto-me. Ando de um lado a outro. A parede branca, o retrato. Tudo em mim.


Desligo o carro, atravesso a rua e bato à porta uma única vez. Entro na casa, sorrio, sento e observo as pessoas que valsam uma canção alegre e rítmica. Balanço os pés e aceno. Agora não é mais uma canção. É a canção. Sorrio e aceno. Assim, é como faço. No rosto, uma angústia translúcida de “assim seja”, com ares de “que seja assim”.


domingo, 28 de setembro de 2014

Caderninho azul

Era uma história. Não uma vez.
Nela, rascunhos rasurados
De amor.
Um caderninho azul.

Começou contando
A vida de dois.
Terminou com a de três.

De um, que estava na estória,
Mas não na vida;
De outro, que estava na vida,
Mas não na história.
Terminou com a vida de um.

Mas este um alheio.
Não era nosso filho.
Nosso filho...

Voltaram-se então,
Às páginas em branco
Onde o terceiro vive.
A vida dos dois.

domingo, 17 de agosto de 2014

Dona Renata

À Dona Renata

Chora, Dona Renata. Entregue-se copiosamente ao desespero, à dor. Tua força é bonita, mas pesada. Tens ainda, à frente, muita dureza a caminhar. Chora agora. Deita-te nos ombros dos amigos ou no colo de teu travesseiro – ou no dele. De dia mesmo, não espere à noite, não espere o amanhã. Tu, mais que ninguém, sabes que o amanhã ainda não existe. E pode não existir. Descanse, Dona Renata. Sinta a tormenta que está, pois ela irá diminuir seus ventos, sem nunca cessar. Torne leve teu doloroso penar. De forte, já bastam os arrombos da vida. Afrouxe tua fortaleza. Repouse. Há que ser dura noutros dias; permita-se, por hoje, nada ser além de saudade.

domingo, 29 de junho de 2014

O canto

O espaço é tão amplo, frio... Assim, todo pintado de branco. Aliás, branca é uma cor fria? Não sei, mas o espaço é. Frio e iluminado pelo sol que rasteja no chão, ao entrar pela fresta da janela. Que horas são? Há pouco, era ontem. E já é hoje, que logo ontem também será. Logo? Não, pois o sol rasteja e eu não abro toda a janela. Mesmo se abrisse, o hoje não seria ontem tão cedo amanhã. Compreende? 

Fumo. Para ver se a fumaça embaça a lembrança. Mas nada acontece. Ela é pouca para o espaço branco, amplo. E eu lembro de tudo. Não que eu queira, mas não me deixo esquecer.Eu queria, mas não me deixo. Isso nunca se vai. Fumo. E a fumaça se esvai. Somente ela. Se vai. E eu fico. No espaço branco, amplo e frio.

É melhor colocar fogo neste apartamento. 

domingo, 4 de maio de 2014

Tarde

Caminho ao passo da velhice, como se meus jovens anos não soubessem do tempo em que vivo. O feixe de luz por entre os prédios, o bater de asas do pássaro, o menino que lê e sorri, são como fantasmas em meio ao caos diário, por onde a ordem agora se faz razão de ser. 

Ninguém os vê, além de mim. Devaneio. Atraso meus deveres, minha rotina a contemplá-los. O mundo corre. Perco a hora - que se esvai veloz pelos ponteiros do relógio. Não há espera. Ninguém me espera. 

Quando percebo, o sol já se pôs. A porta está fechada. O tempo não se encaixou às horas. 

Eu era sozinha.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Saudade

Texto publicado em Maio de 2008. Para todos aqueles que sentem saudade.


Era uma varanda extensa, com um pequeno jardim à frente. Havia uma rua pouco movimentada que trazia vida àquela residência tão quieta. Trazia porque os passantes estavam habituados a olhar aquela cena quase fotográfica, não fossem os suspiros de tempos em tempos vindos daquele lugar...

Ela se sentava todos os dias na mesma cadeira. Nas manhãs, tardes e noites, após exercer mecanicamente todas as atividades diárias da casa. E todas as necessárias para que sua vida prosseguisse, até chegar a hora em que Deus resolvesse levá-la.

Deus. Como ela chamava por esse nome. Pedia diariamente para que ele colocasse um fim a sua melancolia. Mas ele a ignorava, e se esquecia dela. Passava ao seu lado sempre, levava a Maria, a Selma, a Ivone.... E se ia. 

...

Lembrava da casa cheia. Das crianças correndo naquele jardim. Dos longos almoços cheios de sorrisos e altas palavras; das visitas vindas de fora, das vizinhas amigas, dos bordados, dos bolos com café passado na hora...

Suspirava. Levantava. E limpava a lágrima que sempre teimava em cair.

******

...porque hoje é dia da saudade. E que dia não é?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

{Música} Vício - Phill Veras

Esta é uma das músicas que eu gostaria de ter escrito...


Baixe as músicas de Phill Veras no site Musicoteca.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cortejo à amante

Pontualmente, às 20h, ele entra em minha casa e deixa o passar da rua pelo portão. Senta-se no sofá e vê da janela um céu emoldurado por tropo do tempo que nunca morre. Pergunta-me se sempre haverá estrelas. E eu, crente, digo que mesmo lá, haverá.  Observa a casa em ordem de rotina, o tapete que recebe os pés com prazer e o silêncio das cumplicidades que nada dizem em palavras. Olha as paredes em cores. Gestualmente, ama-me imóvel, afável somente por ser e ali estar.

O sol crepitante, a chuva fina, o vento morno , a trovoada firme, a primavera leve, os pequenos raios - de luz ou luz.

Pontualmente, às 22h ou 22h10, ele passa em frente à rua de minha casa e para em frente à porta. Fica ali de pé, olhando as janelas carcomidas pelo tempo. Curto tempo. Observa o portão, com seus canos retorcidos ornadamente. Verifica o contorno da casa, o desvanecer das cores das paredes;  o capim que cresce em desordem, imperioso. Ele não vê caminho para a entrada - mas procura. 

Então, percebe que são horas, e que se ela souber que ele ainda ali está, diariamente, desmoronará todo o imperioso castelo de areia. Ela é feita de água e pó. Onde ela mora, não há estrelas. Mas o céu, ah, o céu! é sempre de um azul cintilante, como o da parede branca. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre como me tornei máquina - II

Sentada
à beira do abismo

desprendo do peito a dor
que me faz existir.
Lentamente me deixo ir
até tocar
- com pés firmes -
o chão.

Então, volto para casa.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Sob tuas alturas


Eleva-me sofregamente
quando percorre meus declives
- vales férteis de lânguidos caminhos -
com suas mãos deslizantes.

Eleva-me tempestivamente
- à paisagem, surgem alterosas -
perfazendo minhas entranhas
a expor feixes de luz outrora ocultos.

Eleva-me, enfim, num sobressalto.
Inunda-me, em riste,
em  teu rio 
leitoso, morno, acolhedor.

Resfolegante
suavizas, assim
os gritos de minh´alma.



domingo, 2 de junho de 2013

Distonia do amanhã

tenho pressa. a vida termina amanhã. já não há saudade, ausência ou presença. a vida termina amanhã. assim, como começou...porque começou? porque ela termina amanhã? só sei que hoje é tarde; sempre é tarde para a vida terminar amanhã. 

são madrugadas, mas não as do dia em que o amanhã finda a vida; ou a vida finda a manhã? só sei que o céu vermelho, é o abismo contrário do que abismo é. já não sinto saudades. nem de sentir saudades. é o fim da razão, onde ela nunca existiu. 

(se acreditasse em outras vidas, meu amor, mataria a crença, só para descansar em paz. para sempre, sem ser)

às seis o galo cantou.
o sino tocou.
Ecoou.
Ecoou.
Ecoou: o incômodo das horas... às seis da manhã.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Outras horas

Passas por mim
a rastrejar-me os desejos.
Ansiando a descoberta de minhas rendas
negras como a noite
com cálidas mãos que me tateiam 
sorrateiras e tempestivas.

Há tempo.

Adentra-me vasculhando quartos
meios, inteiros.
Velando-me em vigilante nudez
-corpo e sonho -
enquanto desfaleço 
em teus linhos. 

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Amor, sentido e arte

“Nos anos 70, Marina Abramovic viveu uma intensa história de amor com Ulay. Durante 5 anos viveram num furgão realizando todo tipo de performances. Quando sentiram que a relação já não valia aos dois, decidiram percorrer a Grande Muralha da China; cada um começou a caminhar de uma lado, para se encontrarem no meio, dar um último grande abraço um no outro, e nunca mais se ver. 

Vinte e três anos depois, em 2010, quando Marina já era uma artista consagrada, o MoMa de Nova Iorque dedicou uma retrospectiva a sua obra. Nessa retrospectiva, Marina compartilhava um minuto de silêncio com cada estranho que sentasse a sua frente. Ullay chegou sem que ela soubesse. E foi assim.”

Acessado em 10 de abril de 2013



Percebe?

domingo, 24 de março de 2013

Quando, se.


Se tivesse partido
Como os homens comuns que ao seu tempo
caminham
Não sentiria tua ausência como sinto
quando você está.

Se você tivesse partido

Como os homens comuns que  ao seu tempo
caminham
Não sentiria que está 
quando de tua ausência.

Se você estivesse

E tivesse partido
Eu sentiria
Preenchido esse vazio.
 
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