segunda-feira, 19 de abril de 2010

Querer

"Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim"
Álvaro de Campos

Já era noite quando transcrevi meu último desejo ao olhar daquele homem. Olhei de um modo que não olhavam mais minhas antigas vontades de pertencer; achava-me antes, aturdida de ilusões e escapes.

O que vi transcendia verdades ditas à luz de uma percepção qualquer. O mundo daquela sala rescendia a um misterioso segredo de dizer mais do que todas as palavras existentes são capazes; tinha de ser por uma inventada, acalentada por aquele fixo olhar.

E nada consegui expressar, nada fiz além de sorrir enquanto lágrimas banhavam meu silencioso desejo. Eu queria ter sido livre antes de ela voltar.

domingo, 4 de abril de 2010

quinta-feira, 18 de março de 2010

O abismo

Desejo abismar-me em ti.

O chão, colo de repouso, não permite o encontro de meus pés. E permaneço desejo. Lanço-me em tua existência obscura - não de claridade, mas de ti ao meu encontro.

Abismo-te em mim.

Flutuamos insanos gestos ao ar sem que haja a captura de qualquer fragmento de sustentáculo. E ainda assim estendo o olhar e espero teu pouso.

O abismo de nós.

Só o ar preenche e aquece o entorno de meu corpo. Não há luz, não há calor. Somente imagens dispersas projetadas no escuro de meus olhos. Não há ninguém. Não há nada.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Aniversário do blog - 2 anos

Olá meus amigos!

Hoje o Degustação Literária faz dois anos. Compartilho com vocês a minha alegria da escrita, de belas músicas e telas. Obrigada pelo carinho e presença de todos! Hoje serei breve, para não me repetir demais...

Um grande beijo!

Fernanda

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Dúvida da tarde

Tua ronda lança pequenas faíscas que trovejam enigmas nas tardes claras de meu sereno. Recolho resquícios da latente vontade de meus olhos para fertilizar outros campos, enxugando um sorriso com  mãos do que é possível ser, por hora.

Retorno ao meu ponto de encontro por um suspiro e, sorrateiramente, sinto teu despretensioso toque a negar o pacto que firmamos sem palavras, mas que cumpliciamos ao longo dos encontros.

O que somos, afinal?

domingo, 31 de janeiro de 2010

Alucinação

Ponta
faca
pronta
tonta.
Conta e apronta.

Norte de cá,
sul de lá.

Monta.
Pega.
Leva e desleva.
Fica
finca
pinta.

Rima teu pão
com minha boca.

Ponta.
Conta e apronta.
Contra faca,
leva
conta.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Receituário II

Sofro ausência de paixão.
Avassalos regulares antes,
disrítmicos hoje.
Perco os meandros da vida
e a linha, ponta, alinha
bambos passos.
Sofro ausência de paixão
lucidez de verdade.
Meu ar de morrer
- veneno, doutor -
meu ar de morrer
me pára.
Paixão, doutor: prescreva-me.
 
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