quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Saudade

Texto publicado em Maio de 2008. Para todos aqueles que sentem saudade.


Era uma varanda extensa, com um pequeno jardim à frente. Havia uma rua pouco movimentada que trazia vida àquela residência tão quieta. Trazia porque os passantes estavam habituados a olhar aquela cena quase fotográfica, não fossem os suspiros de tempos em tempos vindos daquele lugar...

Ela se sentava todos os dias na mesma cadeira. Nas manhãs, tardes e noites, após exercer mecanicamente todas as atividades diárias da casa. E todas as necessárias para que sua vida prosseguisse, até chegar a hora em que Deus resolvesse levá-la.

Deus. Como ela chamava por esse nome. Pedia diariamente para que ele colocasse um fim a sua melancolia. Mas ele a ignorava, e se esquecia dela. Passava ao seu lado sempre, levava a Maria, a Selma, a Ivone.... E se ia. 

...

Lembrava da casa cheia. Das crianças correndo naquele jardim. Dos longos almoços cheios de sorrisos e altas palavras; das visitas vindas de fora, das vizinhas amigas, dos bordados, dos bolos com café passado na hora...

Suspirava. Levantava. E limpava a lágrima que sempre teimava em cair.

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...porque hoje é dia da saudade. E que dia não é?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

{Música} Vício - Phill Veras

Esta é uma das músicas que eu gostaria de ter escrito...


Baixe as músicas de Phill Veras no site Musicoteca.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cortejo à amante

Pontualmente, às 20h, ele entra em minha casa e deixa o passar da rua pelo portão. Senta-se no sofá e vê da janela um céu emoldurado por tropo do tempo que nunca morre. Pergunta-me se sempre haverá estrelas. E eu, crente, digo que mesmo lá, haverá.  Observa a casa em ordem de rotina, o tapete que recebe os pés com prazer e o silêncio das cumplicidades que nada dizem em palavras. Olha as paredes em cores. Gestualmente, ama-me imóvel, afável somente por ser e ali estar.

O sol crepitante, a chuva fina, o vento morno , a trovoada firme, a primavera leve, os pequenos raios - de luz ou luz.

Pontualmente, às 22h ou 22h10, ele passa em frente à rua de minha casa e para em frente à porta. Fica ali de pé, olhando as janelas carcomidas pelo tempo. Curto tempo. Observa o portão, com seus canos retorcidos ornadamente. Verifica o contorno da casa, o desvanecer das cores das paredes;  o capim que cresce em desordem, imperioso. Ele não vê caminho para a entrada - mas procura. 

Então, percebe que são horas, e que se ela souber que ele ainda ali está, diariamente, desmoronará todo o imperioso castelo de areia. Ela é feita de água e pó. Onde ela mora, não há estrelas. Mas o céu, ah, o céu! é sempre de um azul cintilante, como o da parede branca. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre como me tornei máquina - II

Sentada
à beira do abismo

desprendo do peito a dor
que me faz existir.
Lentamente me deixo ir
até tocar
- com pés firmes -
o chão.

Então, volto para casa.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Sob tuas alturas


Eleva-me sofregamente
quando percorre meus declives
- vales férteis de lânguidos caminhos -
com suas mãos deslizantes.

Eleva-me tempestivamente
- à paisagem, surgem alterosas -
perfazendo minhas entranhas
a expor feixes de luz outrora ocultos.

Eleva-me, enfim, num sobressalto.
Inunda-me, em riste,
em  teu rio 
leitoso, morno, acolhedor.

Resfolegante
suavizas, assim
os gritos de minh´alma.



domingo, 2 de junho de 2013

Distonia do amanhã

tenho pressa. a vida termina amanhã. já não há saudade, ausência ou presença. a vida termina amanhã. assim, como começou...porque começou? porque ela termina amanhã? só sei que hoje é tarde; sempre é tarde para a vida terminar amanhã. 

são madrugadas, mas não as do dia em que o amanhã finda a vida; ou a vida finda a manhã? só sei que o céu vermelho, é o abismo contrário do que abismo é. já não sinto saudades. nem de sentir saudades. é o fim da razão, onde ela nunca existiu. 

(se acreditasse em outras vidas, meu amor, mataria a crença, só para descansar em paz. para sempre, sem ser)

às seis o galo cantou.
o sino tocou.
Ecoou.
Ecoou.
Ecoou: o incômodo das horas... às seis da manhã.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Outras horas

Passas por mim
a rastrejar-me os desejos.
Ansiando a descoberta de minhas rendas
negras como a noite
com cálidas mãos que me tateiam 
sorrateiras e tempestivas.

Há tempo.

Adentra-me vasculhando quartos
meios, inteiros.
Velando-me em vigilante nudez
-corpo e sonho -
enquanto desfaleço 
em teus linhos. 

 
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