domingo, 29 de junho de 2014

O canto

O espaço é tão amplo, frio... Assim, todo pintado de branco. Aliás, branca é uma cor fria? Não sei, mas o espaço é. Frio e iluminado pelo sol que rasteja no chão, ao entrar pela fresta da janela. Que horas são? Há pouco, era ontem. E já é hoje, que logo ontem também será. Logo? Não, pois o sol rasteja e eu não abro toda a janela. Mesmo se abrisse, o hoje não seria ontem tão cedo amanhã. Compreende? 

Fumo. Para ver se a fumaça embaça a lembrança. Mas nada acontece. Ela é pouca para o espaço branco, amplo. E eu lembro de tudo. Não que eu queira, mas não me deixo esquecer.Eu queria, mas não me deixo. Isso nunca se vai. Fumo. E a fumaça se esvai. Somente ela. Se vai. E eu fico. No espaço branco, amplo e frio.

É melhor colocar fogo neste apartamento. 

domingo, 4 de maio de 2014

Tarde

Caminho ao passo da velhice, como se meus jovens anos não soubessem do tempo em que vivo. O feixe de luz por entre os prédios, o bater de asas do pássaro, o menino que lê e sorri, são como fantasmas em meio ao caos diário, por onde a ordem agora se faz razão de ser. 

Ninguém os vê, além de mim. Devaneio. Atraso meus deveres, minha rotina a contemplá-los. O mundo corre. Perco a hora - que se esvai veloz pelos ponteiros do relógio. Não há espera. Ninguém me espera. 

Quando percebo, o sol já se pôs. A porta está fechada. O tempo não se encaixou às horas. 

Eu era sozinha.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Saudade

Texto publicado em Maio de 2008. Para todos aqueles que sentem saudade.


Era uma varanda extensa, com um pequeno jardim à frente. Havia uma rua pouco movimentada que trazia vida àquela residência tão quieta. Trazia porque os passantes estavam habituados a olhar aquela cena quase fotográfica, não fossem os suspiros de tempos em tempos vindos daquele lugar...

Ela se sentava todos os dias na mesma cadeira. Nas manhãs, tardes e noites, após exercer mecanicamente todas as atividades diárias da casa. E todas as necessárias para que sua vida prosseguisse, até chegar a hora em que Deus resolvesse levá-la.

Deus. Como ela chamava por esse nome. Pedia diariamente para que ele colocasse um fim a sua melancolia. Mas ele a ignorava, e se esquecia dela. Passava ao seu lado sempre, levava a Maria, a Selma, a Ivone.... E se ia. 

...

Lembrava da casa cheia. Das crianças correndo naquele jardim. Dos longos almoços cheios de sorrisos e altas palavras; das visitas vindas de fora, das vizinhas amigas, dos bordados, dos bolos com café passado na hora...

Suspirava. Levantava. E limpava a lágrima que sempre teimava em cair.

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...porque hoje é dia da saudade. E que dia não é?

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

{Música} Vício - Phill Veras

Esta é uma das músicas que eu gostaria de ter escrito...


Baixe as músicas de Phill Veras no site Musicoteca.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Cortejo à amante

Pontualmente, às 20h, ele entra em minha casa e deixa o passar da rua pelo portão. Senta-se no sofá e vê da janela um céu emoldurado por tropo do tempo que nunca morre. Pergunta-me se sempre haverá estrelas. E eu, crente, digo que mesmo lá, haverá.  Observa a casa em ordem de rotina, o tapete que recebe os pés com prazer e o silêncio das cumplicidades que nada dizem em palavras. Olha as paredes em cores. Gestualmente, ama-me imóvel, afável somente por ser e ali estar.

O sol crepitante, a chuva fina, o vento morno , a trovoada firme, a primavera leve, os pequenos raios - de luz ou luz.

Pontualmente, às 22h ou 22h10, ele passa em frente à rua de minha casa e para em frente à porta. Fica ali de pé, olhando as janelas carcomidas pelo tempo. Curto tempo. Observa o portão, com seus canos retorcidos ornadamente. Verifica o contorno da casa, o desvanecer das cores das paredes;  o capim que cresce em desordem, imperioso. Ele não vê caminho para a entrada - mas procura. 

Então, percebe que são horas, e que se ela souber que ele ainda ali está, diariamente, desmoronará todo o imperioso castelo de areia. Ela é feita de água e pó. Onde ela mora, não há estrelas. Mas o céu, ah, o céu! é sempre de um azul cintilante, como o da parede branca. 

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sobre como me tornei máquina - II

Sentada
à beira do abismo

desprendo do peito a dor
que me faz existir.
Lentamente me deixo ir
até tocar
- com pés firmes -
o chão.

Então, volto para casa.

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Sob tuas alturas


Eleva-me sofregamente
quando percorre meus declives
- vales férteis de lânguidos caminhos -
com suas mãos deslizantes.

Eleva-me tempestivamente
- à paisagem, surgem alterosas -
perfazendo minhas entranhas
a expor feixes de luz outrora ocultos.

Eleva-me, enfim, num sobressalto.
Inunda-me, em riste,
em  teu rio 
leitoso, morno, acolhedor.

Resfolegante
suavizas, assim
os gritos de minh´alma.



 
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