O impulso pulsa.
Espinho que finca
Voz que dita
Às mãos o que pensar.
O impulso pulsa.
Ofega o sentido
Taquicardia o sonho
Grita o agito, sem considerar.
O impulso ainda pulsa.
Solta a razão desenfreada
Que pula imprudente
No ciclo do recomeçar.
O intruso
O impulso
O pulso
Pula.
E sangra, sangra. E sangra.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2016
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
Brado
Suplicante te peço
Em relampejo desejo que brota
Da pele minha
Ao encontro da sua.
Tenha dó
E venha.
Por onde quer que seja
A conduzir a arritmia densa
Em que sussurro
Teu nome.
Tenha dó
E venha
De mãos atadas
Suplicante
Curvada ao pedido
Rogo-te:
Tenha dó...
Tenha dó...
Tenha dó.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
Vida e morte no baile
Desligo o carro, atravesso a rua
e bato à porta ininterruptas vezes até que ela se abra - o que não demora. Lanço-me
à casa ávida pelo encontro, por quebrar descuidadosamente um vaso que ao canto
está, pela pressa de ir e ser. Mas não o faço. Sento-me à poltrona, pés a
balançar. No rosto, um singelo tom de “diga-me” com ares de “que seja assim” e
não de que “assim seja”.
Enquanto isso, fantasmas valsam na sala. Eles não estavam aqui quando
entrei. Não havia música, apenas o bailar do mutismo.
A inquietude taqui-cardia-me. O
desejo, a ânsia, a cruz. Valha-me Deus. Valha-me o Diabo. Eu sou o meio que
pende. Levanto-me. Ando de um lado a outro. A parede branca, o retrato. Tudo em mim.
Desligo o carro, atravesso a rua
e bato à porta uma única vez. Entro na casa, sorrio, sento e observo as pessoas
que valsam uma canção alegre e rítmica. Balanço os pés e aceno. Agora não é
mais uma canção. É a canção. Sorrio e aceno. Assim, é como faço. No rosto, uma
angústia translúcida de “assim seja”, com ares de “que seja assim”.
domingo, 28 de setembro de 2014
Caderninho azul
Era uma história. Não uma vez.
Nela, rascunhos rasurados
De amor.
Um caderninho azul.
Começou contando
A vida de dois.
Terminou com a de três.
De um, que estava na estória,
Mas não na vida;
De outro, que estava na vida,
Mas não na história.
Terminou com a vida de um.
Mas este um alheio.
Não era nosso filho.
Nosso filho...
Voltaram-se então,
Às páginas em branco
Onde o terceiro vive.
A vida dos dois.
domingo, 17 de agosto de 2014
Dona Renata
À Dona Renata
Chora,
Dona Renata. Entregue-se copiosamente ao desespero, à dor. Tua força é bonita,
mas pesada. Tens ainda, à frente, muita dureza a caminhar. Chora agora. Deita-te
nos ombros dos amigos ou no colo de teu travesseiro – ou no dele. De dia mesmo,
não espere à noite, não espere o amanhã. Tu, mais que ninguém, sabes que o
amanhã ainda não existe. E pode não existir. Descanse, Dona Renata. Sinta a tormenta que está, pois ela irá diminuir seus ventos, sem nunca
cessar. Torne leve teu doloroso penar. De forte, já bastam os arrombos da
vida. Afrouxe tua fortaleza. Repouse. Há que ser dura noutros dias;
permita-se, por hoje, nada ser além de saudade.
domingo, 29 de junho de 2014
O canto
O espaço é tão amplo, frio... Assim, todo pintado de branco. Aliás, branca é uma cor fria? Não sei, mas o espaço é. Frio e iluminado pelo sol que rasteja no chão, ao entrar pela fresta da janela. Que horas são? Há pouco, era ontem. E já é hoje, que logo ontem também será. Logo? Não, pois o sol rasteja e eu não abro toda a janela. Mesmo se abrisse, o hoje não seria ontem tão cedo amanhã. Compreende?
Fumo. Para ver se a fumaça embaça a lembrança. Mas nada acontece. Ela é pouca para o espaço branco, amplo. E eu lembro de tudo. Não que eu queira, mas não me deixo esquecer.Eu queria, mas não me deixo. Isso nunca se vai. Fumo. E a fumaça se esvai. Somente ela. Se vai. E eu fico. No espaço branco, amplo e frio.
É melhor colocar fogo neste apartamento.
domingo, 4 de maio de 2014
Tarde
Caminho ao passo da velhice, como
se meus jovens anos não soubessem do tempo em que vivo. O feixe de luz por
entre os prédios, o bater de asas do pássaro, o menino que lê e sorri, são como
fantasmas em meio ao caos diário, por onde a ordem agora se faz razão de
ser.
Ninguém os vê, além de mim. Devaneio. Atraso meus deveres, minha rotina a contemplá-los. O mundo corre. Perco
a hora - que se esvai veloz pelos ponteiros do relógio. Não há espera. Ninguém me espera.
Quando percebo, o sol
já se pôs. A porta está fechada. O tempo não se encaixou às horas.
Eu era sozinha.
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